pia
- Lucca Gerhardt

- 26 de abr.
- 1 min de leitura
tem dias em que a louça acumulada parece mais viva do que eu. cresce em silêncio e se multiplica como se estivesse em guerra com o tempo que eu não tenho. a pia já virou um monumento ao tempo que não dei. as xícaras estão empilhadas em completo silêncio, os copos sujos de ontem, de anteontem…e de mim
um garfo grita debaixo da faca, enquanto o sabão seca no fundo feito mágoa que não foi dita. cada prato sujo é lembrete da rotina que me escapa e dos ciclos que se repetem sem que eu perceba. é o café que esfriou enquanto eu pensava demais ou até a comida esquecida, porque a vontade de comer foi embora junto com a fome de existir
a torneira, cruel por si, só conhece os extremos: ou me queima ou me congela. como se a casa em si também tivesse partido nesse jogo de extremos. não tem espaço. é assim que ela me trata, como se me dissesse que a vida real não tem temperatura ideal, e que a única escolha é entre o desconforto que fere e o que adormece
o meio a meio é irreal, como as promessas que fiz no espelho ou aquela vontade de recomeçar somente na segunda-feira
e ali eu fico,
encarando a louça
como quem encara um passado recente, sabendo que ela não vai sumir só porque eu fecho os olhos por um instante

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